O profissional responsável pelas manobras nos portos recebe o nome de prático e está em
suas mãos a tarefa de atracar navios paralelamente aos cais, o que não é nada prático
Prático. Este é o nome do funcionário responsável pelas manobras de navios nos portos do
mundo todo, mas de prática sua profissão não tem nada. Isso porque o prático não presta um serviço
comercial, mas, sim, de segurança. As manobras exigem excelência tamanha que qualquer erro poderia danificar
um portêiner, o que atrapalharia consideravelmente a logística portuária de todo país. Outra manobra
equivocada poderia danificar o navio e ser responsável por um enorme vazamento de óleo no oceano.

Segundo Fábio Fontes, presidente da Praticagem do Estado de São Paulo, em
Santos, e prático há 41 anos, a lei prevê que todo e qualquer navio requer a ajuda de um prático para ser
estacionado no porto. Somente os navios da Marinha podem deixar de pedir o auxílio. “Mas em toda minha
carreira nunca vi um navio da Marinha deixar de solicitar o profissional porque isso não seria um gesto de
inteligência”, declarou. “O Estado exige que isso seja compulsório porque não quer correr riscos. E os
comandantes sabem que os práticos são altamente capacitados”.
Fontes compara seu
trabalho ao de um bombeiro. “As duas profissões zelam pela segurança e pelo meio ambiente”. Também é por
este motivo que, na opinião do presidente, a Praticagem de Santos é a única empresa privada a prestar este
tipo de serviço no maior sistema portuário da América Latina. “A mercadoria que oferecemos chama-se
segurança e o maior beneficiado disso é a sociedade. Não há motivo para concorrência já que seria o mesmo do
que ter bombeiros de empresas concorrentes”, justificou.
O presidente afirmou que
sua empresa não é detentora de nenhum monopólio. “Os preços são negociados entre uma comissão de práticos e
uma de armadores. Essas reuniões são longas e toma-se um bom tempo para ter um resultado”, disse. “A última
foi fruto de conversas durante oito meses. Chegamos a uma tabela e ela foi assinada pelas duas partes. No
caso de um impasse muito expressivo, a Marinha arbitra um valor”.
O preço definido
para cada manobra varia de acordo com a distância da atracação, o tamanho e a idade do navio. “Todo navio
com mais de 18 anos paga um adicional, já que a idade útil do navio é de 25 anos. Quando ele passa dos 18
significa que os riscos de uma falha eletrônica e mecânica aumentam”, explicou Fontes.
Uma luta
nada prática
Os registros existentes apontam que em 1870 já existia a Praticagem
da Barra (Práticos da Cidade) e ainda a entidade Práticos da Barra Grande. Hoje, os práticos de Santos são
responsáveis por cerca de 13.400 manobras por ano em um canal estreito, relativamente raso, sinuoso e cheio
de instrumentos portuários. Para realizar uma manobra, que exige que o navio esteja milimetricamente
paralelo ao cais e demora cerca de duas horas (entre chegada e partida), uma lancha da empresa leva o
prático até a barra, onde o navio espera a chegada do profissional.

Com o
navio e a lancha em movimento, o prático sobe por uma escada flexível, chamada “quebra-peito”, e então parte
para uma rampa de madeira paralela ao navio, a alguns metros do mar. Ao todo são cerca de 140 degraus em
navios que chegam a mais de 300 metros de cumprimento e de 15 a 17 metros de calado. Enfim, de prática essa
“escalada” não tem nada.
E para poder participar dessa aventura, o prático precisa
estudar, no mínimo, de cinco a sete mil horas líquidas para ter chance de ser aprovado em um concurso
público promovido pela Marinha. Quando Fontes prestou o concurso, ele, que já era casado e tinha filhos
pequenos, resolveu se refugiar na casa dos pais e lá ficou por 240 dias, quando estudou 16 horas diárias
para preencher uma das quatro vagas disputadas, na época, por cerca de 680 candidatos. “Eu antevia o futuro
que a Marinha Mercante teria e via na praticagem algo que eu gostava muito de fazer”.
Assim como é requisito para todos os candidatos, Fontes foi oficial da marinha mercante e
navegou durante oito anos e meio. Esta condição, além de ser cidadão brasileiro, com mais de 21 anos e ter
diploma são os pré-requisitos para os interessados no concurso da praticagem, promovidos tão logo a Marinha
seja notificada sobre sua necessidade. Arquitetura naval, meteorologia, direito marítimo, navegação
eletrônica e costeira são alguns dos assuntos cujo domínio é exigido nas provas. Além da prova oral e
escrita serem em inglês.
Sendo aprovado, o concursado passa a ser um praticante e
em até dois terá de realizar 700 manobras, metade diárias e metade noturnas, para se tornar um sócio
detentor da empresa. Esse é o caso do praticante Rodrigo Villasboas que, com 26 anos, foi aprovado no último
concurso, realizado em 2008, e já fez cerca de 400 manobras.
Hoje o Porto de
Santos possui 30 práticos e, portanto, a Praticagem tem 30 sócios. Todo o capital que resulta das manobras
deve pagar as despesas dos 90 funcionários da empresa, além dos custos de manutenção e infraestrutura. E
então o saldo restante é dividido entre os práticos. “O prático não tem um salário. O que ele ganha depende
de quantas manobras são realizadas em um mês. É por isso que os práticos de Santa Catarina tiveram alguns
meses difíceis quando o Porto de Itajaí foi atingido por aquela tragédia climática”, explicou
Fontes.
O último concurso promovido pela Marinha para o Porto de Santos foi
realizado em 2008 e aprovou 22 candidatos. Desses, 11 foram chamados para a praticagem em 2009 e o restante
será chamado em 2010. “A Marinha entendeu que a divisão em dois grupos seria necessária para não prejudicar
o aprendizado dos profissionais e a estrutura operacional”.
Para Fontes, a
praticagem de Santos é uma das mais modernas. “É uma das melhores da América. Aqui trabalhamos com
ferramentas inferiores às usadas nos Estados Unidos e por isso o gerenciamento de risco que compete ao
prático é mais difícil aqui do que nos portos de países do primeiro mundo”, afirmou o
presidente.
Amor até debaixo d’água
Com 70 anos, Fontes continua a
subir e descer os degraus da escada “quebra-peito”. A vitalidade, explica ele, está no amor pela profissão.
“Os médicos me falam que tenho mais dez anos pela frente. Me sinto no auge do raciocínio e na capacidade de
manobra. Não sei fazer outra coisa e isso eu amo fazer”, justificou Fontes. Quando o assunto são as manobras
de carro, ele afirma: “Nunca vi um prático que não estacionasse muito bem um carro também”.
Algumas histórias engraçadas fazem parte de sua carreira. Em uma delas, certa noite fez uma
manobra e quando chegou na barra para desembarcar, o mar estava tão agitado que Fontes não conseguiu. “O
navio estava indo para o Rio de Janeiro e então ele me deixou no porto de São Sebastião. Tinha ido a uma
festa da Marinha com minha mulher, antes da manobra, e nem sei que horas consegui chegar em casa”, contou. A
queda no mar em duas ocasiões também faz parte de suas histórias.
Pelo mesmo
caminho vai o prático Francisco Maia, exceto pelas quedas. Com quinze anos de carreira e em Santos há oito,
o maior navio que já passou pela cidade, o Stella, com 304 metros, foi Maia quem manobrou. Portanto,
manobrar um de 176 metros de comprimento e 8,60 de calado, um dos que passaram pelo Porto recentemente, é
tarefa fácil. “A atividade passa a ser tranquila quando adquirimos experiência. A dificuldade é o tempo
ruim, quando tudo é mais perigoso, principalmente a descida”, disse.
A atividade
fica mais fácil com a ajuda dos funcionários do centro de operações, que controlam toda a movimentação do
porto. Denise Assumpção, operadora, tem uma visão de 180º graus do canal do porto e informa os navios que
estão liberados para a manobra e aqueles que apresentam problemas. Mas Fontes revela o pulo do gato. Ou do
prático. “A maioria se torna prático ainda jovem. E o único jeito dele conseguir ser respeitado é manobrar
muito bem”.